Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

A lua acompanha-me

A lua acompanha-me. Pensei que fosse o teu brilho, a tua luz. Pensei que fosse a tua voz esta leveza que me chama e me conduz. Pensei que fosses tu nesta noite. Mas é a lua. Nitidamente, a lua. Consigo discernir a sua face secreta e revelada, os seus montes negros na planície que se entende branca. É a lua que hoje me acolhe.
Sob os meus pés a cidade estende-se. Não imaginava que a cidade pudesse ser tão bela. Luz aqui e acolá. E a lua. A lua que me acompanha.
Queria dizer-te tanta coisa e tanta coisa se esfumou no instante em que te vi. Não porque sejas belo ou porque a tua presença me incomoda. Apenas porque és tu. Porque o silêncio do que nós não dizemos pode pesar mais do que as palavras ditas. E a voz secou. E a boca tornou-se fonte sem vida. Tudo passou. Sim, e tudo passou... Partiste sem olhar para trás. Eu parti e vi que não olhaste. E depois? O que é que aconteceu depois? Nada. Nada tem de acontecer.
Hoje estou eu e a lua. A lua que me seduz. A lua que se confunde com estas pequenas luzes sob os meus pés. A lua que eu distingo claramente. Não és tu. Sou apenas eu e a lua.

Noite fria

O reflexo da lua estende-se no chão. Um presente da noite escura antes do mundo fechar os olhos. Hoje faz frio e o brilho da lua estende-se no chão. Ando a pensar em todos os aromas que perdi. A obsessão pelo vazio deixou que o rio corresse com a minha alma vendada. Deixei de saber sentir a certeza. Deixei de ter nas minhas mãos os castelos que ergui. O mundo soube evaporar-se sem eu compreender... Podia dizer que tudo decorreu num breve segundo de luz ou que eu estava longe, muito longe. Mas o meu corpo era este e a minha voz não se ouviu. Perdi-me. Estranhamente perdi-me na tua ausência. Deixei que os braços da vacuidade me amparassem e me deixassem ao acaso. Fui eu que deixei. Não foste tu. Não foi o vento que soprou forte demais. A minha incógnita passividade embruteceu os músculos, as veias, o sangue que devia correr em mim. Eu queria dizer-te tanta coisa, mas tanto silêncio se impôs... Não soube impor-me a esse silêncio. Porque há mágoas mais profundas que um simples beijo. Porque há mares mais desconhecidos que um simples amor. E porque tudo isso se reduziu a nada nesta noite. Recebo agora a lua pelo chão, um círculo mágico, talvez, mas não me lembro das palavras a pronunciar, não me lembro dos gestos a fazer. Não me lembro de mim... Sinto todo o meu corpo gelado. A noite está fria e devia ter-me agasalhado melhor. As perguntas perseguem-me e uma voz sumida atormenta a paz que há tanto tempo ajudei a cultiva. Eu quero calar essa voz. Eu quero rasgar essas palavras que pronuncia e ser eu a gritar-lhe o fim. Mas hoje está tanto frio... O reflexo da lua pelo chão do quarto...

Palavras de renúncia

Junto à carta que te escrevi as minhas palavras de renúncia, aquelas que não soube dizer-te e que nem o vento nem a lua me ensinaram. Encerro assim esta vertigem. O troço do caminho a percorrer chegou ao fim. Não tomes o perfume daquelas folhas como amor não findado, porque esse aroma, esse cheiro que se agarra ás letras que te escrevi, é apenas a sombra seca de uma morte que chegou. Não digo isto querendo aclamar fantasmas nem dar um ar mórbido a este adeus. Porque a morte nem sempre se esgota numa sede de desrazão. E há fins que são bons; como este que já tantas vezes se deu. Deixei apenas de te procurar, um tema muito batido nas minhas memórias. Os gostos já se acomodam, as febres já se suavizam. É tempo de mudar. Olha que o meu corpo, olha que o meu ser sobrevive. Vê bem as suas entranhas, os ligares escondidos entre a hera que cresce. Os espaços vazios que me deste deixaram sublimadas as lágrimas que não chorei. Observa então bem as chagas desta alma que queimaste. E que a imagem das cinzas te perseguia até entenderes que das cinzas nasce um novo amor. Não morri. Não fui eu que deixei de caminhar. Esse nós estranho que fomos é que já não me acompanha mais. Recorda estas palavras de renúncia na noite escura que te assombrar. O apelo da minha voz ecoará entre essas brumas e talvez então, talvez aí queiras pedir ao tempo que se transforme e dizer ao tempo que perdeste. Eu já não estarei aqui. Os meus sonhos foram a muralha à minha ruína e eu sobrevivi. Por isso aceita estas palavras de renúncia, palavras sem nome que te deixo junto à carta que te escrevi.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

Esquecer

"Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não o devia ter despertado
Ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
(...)
Serpente
Nem sente que me envenenou
(...)
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas: desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza
(...)
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
e vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa"
Queixa
Caetano Veloso, «Queixa»
Queixa
Procuro-te. Numa busca incessante procuro-te em todos os recantos de mim mesma. Quero apagar a tua memória, o teu rosto, a tua voz a tua estranha delicadeza que me seduz. Preciso de te esquecer numa necessidade imperativa, num último reduto à minha força de vontade, à minha vontade de viver. Porque cortaste a minha alma às tiras largas e a alma não se pode cortar. Porque fizeste de ti um anjo e os anjos não são para recordar. São para sentir, são para ter ao lado, são para nos acompanhar. Tu nunca estiveste aqui. E as palavras, e os beijos e as emoções eram uma bola de sabão nas mãos de uma criança. Errei sim, errei. Acreditar na ilusão é fechar os olhos à realidade e cair desse trapézio instável que criaste. Agora preciso de queimar as cartas, queimar os teus traços das fotografias, das minhas páginas. Como uma louca procuro-te. Quero dizer-te que cansei de esperar e que a espera nunca foi minha. A forma de o fazer é o único modo de me conseguir erguer. Silenciar as tuas palavras. Silenciar o teu próprio silêncio e fazer da nossa história um punhado de areia que se esvai por entre os dedos. E que o mar te leve para longe. Que ele nunca mais te traga. Sim, eu desconfio do mar… Ele é de marés; ele é de ondas… e volta e traz e regressa e traz. Mas que fiques no fundo! Que mergulhes nas profundezas desconhecidas e que destruas o que já é escuro, o que já é por demais desconhecido. Eu não consigo mais. Preciso de te encontrar! Preciso de te apagar das minhas mãos, da minha boca, da minha mente fora de ordem, do meu espírito que nunca me pertenceu. Não percebes? Esgotaram-se as formas de te amar… Sem mais nada, cansei de esperar.

Procuro nas entrelinhas a forma de te pedir perdão, mas foram as próprias palavras que me atraiçoaram, que pecaram. Porque existe tanto além de um gesto, eu pensei que tudo se pudesse racionalizar e que tivesse tudo essa força imponente… Pensei que as amarras libertas no cais eram nossas e que a viagem que empreendemos era um inicio, uma história de marés altas e marés baixas, de cabelos fustigados pelo vento, molhados pelo suor. Mas esse início, que eu nunca ousara imaginar antes de ti, foi apenas um estranho fim que se escondia nos sorrisos velozes, nas chamadas incompreendidas. Hoje não tenho nada. Apenas a memória do dia em que tive tudo.

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

Palavras

Perguntas-me o que são as palavras numa noite de estrelas e de aroma salgado. Como te dizer que são beijos molhados, abraços quentes e desejo de um futuro além dos nossos olhos? São fontes que ultrapassam a sua origem, segredos que transpõem a sua confidencialidade… e podem ser ditas ou pronunciadas em silêncio. As palavras podem ser inventadas com doces toques, organizadas em olhares fugidios e em estranhos cheiros de uma terra que se sente viva, que se sente nossa.
As palavras, meu amigo, são sabores que se vivem numa noite de estrelas junto ao mar.

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

Cansaço

Fecham-se os olhos pouco a pouco. Havia tanta coisa para dizer, tanta coisa para fazer, que o cansaço cansou antes mesmo de cansar. E sinceramente não estou para filosofias nem metáforas nem minha nossa que o valha. Os olhos fecham-se e pronto. Dizem que nem notamos! Mas eles enganam-se... enganam-se que eu noto e bem! Ora essa! Os olhos fecham e eu não vejo nada! Não é motivo para notar?? Em todo o caso estou cansada. Sim, estou cansada. E farta de ter de começar tudo de novo também. Porque não me dão mais tardes destas? Sem pressas sem este cansaço infernal que me persegue. E sim, sim: os olhos estão a fechar-se...